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Caôs da Copa

Crônicas quase esportivas

por Mário Zambonin

PEN-TA-CAM-PE-ÃO... (3 de julho de 2002)
Malandragem X Molecagem II (21 de junho de 2002)
Malandragem X Molecagem (4 de junho de 2002)



Caô Press - 4 de junho de 2002 - 13:50


Malandragem X Molecagem

O árbitro sul-coreano Kim Young-Joo, que apitou o jogo Brasil X Turquia, fez hoje uma declaração confirmando o que eu já pensava; no lance do pênalti contra a Turquia, ele deu a lei da vantagem: "Estava dando a vantagem, mas ele continuou sendo agarrado e caiu dentro da área". Enquanto Luizão, embora agarrado pelo adversário, manteve o controle da bola, o juiz deixou o lance prosseguir; quando o jogador brasileiro caiu, ele marcou a falta. Luizão foi derrubado quase na linha da grande área, portanto fora dela; mas caiu dentro, o que certamente confundiu o árbitro. Assim, se este errou, foi no máximo por meio metro.

A imagem mostra claramente que Luizão, ao cair, projetou seu corpo dentro da área. Vítima da deslealdade do adversário, ele tentou - e conseguiu - obter para o time brasileiro a maior compensação possível. Compensação justa, diga-se de passagem, pois o lance era de gol. Luizão sofreu um ataque fora das regras do jogo, e tentou usar essas mesmas regras para obter o máximo de vantagem possível; e a vitória do Brasil deveu-se menos ao erro do juiz do que à sua malandragem.

Luizão foi malandro, mas Rivaldo comportou-se como um garotinho. A partir do momento em que o adversário chutou (com força) a bola em cima dele, configurou-se uma agressão, e ele não precisava fazer mais nada - muito menos uma encenação para o árbitro, para milhares de pessoas (que o vaiaram) no estádio e para milhões de pessoas que assistiam ao jogo pela tevê.

No entanto, não sei o que é pior: a atitude de Rivaldo ou as declarações que pude ler na imprensa após o jogo.

Para Armando Marques, por exemplo, Rivaldo "induziu o árbitro ao erro". Só que a agressão em si (independentemente dos seus efeitos em Rivaldo) era suficiente para provocar a punição, e o juiz não errou ao expulsar o jogador turco. Marques também declarou que o turco Hakan Unsal poderia ser absolvido pela FIFA por causa da simulação de Rivaldo: outra declaração infeliz, já que uma coisa não tem nenhuma relação com a outra. Que Rivaldo merecesse um cartão amarelo (ou mesmo vermelho) por sua simulação não exime o jogador turco de sua responsabilidade pelo que fez.

Scolari, por sua vez, complementou a encenação de Rivaldo (e deu seu aval a ela) com uma fabulação inacreditável. Em entrevista coletiva concedida em Ulsan, o treinador afirmou que "foi uma tentativa de defesa; a bola bateu nos joelhos de Rivaldo e subiu, ele protegeu o rosto". Só que a bola, depois de bater em Rivaldo, espirrou para o lado. O técnico da nossa seleção poderia ter dito (por exemplo) que precisaria rever o lance para opinar, mas preferiu inventar uma interpretação fantasiosa e insultar a inteligência de milhões de pessoas.

Rivaldo, por fim, foi mais honesto e menos fantasioso ao declarar: "A bola não bateu no meu rosto. Usei da experiência e acabou dando certo".

Realmente deu certo. Beckenbauer já pediu uma punição para ele, e todos os árbitros da Copa estarão doravante de olho nos jogadores do Brasil; muitas faltas poderão deixar de ser marcadas e muitos jogadores brasileiros poderão levar cartões injustos por "simulação". Pior do que tudo isso, Rivaldo contribuiu, em rede mundial, para manter a imagem do Brasil como sendo um país de moleques, de gente que "quer levar vantagem em tudo". Mas todo malandro autêntico sabe que não é possível (nem desejável) levar vantagem "em tudo", e muito menos levar vantagem "do jeito que der". Malandro que é malandro quer o que é dele, não o que é dos outros. O resto é molecagem.

A diferença entre malandragem e molecagem é sutil, mas ela existe; e nossa seleção de futebol, pela sua importância e pela atenção que desperta no nosso povo e no resto do mundo, deveria levar em conta essa diferença. Eu torço e vou continuar torcendo sempre pelo Brasil, mas também quero lutar para que certas coisas comecem a mudar, e não só na gloriosa seleção brasileira. Dá uma certa irritação perceber que por causa de um simples lance num jogo de futebol continuaremos a ser vistos, ainda durante um bom tempo, como um país de moleques, quando há tantas potências mundiais praticando impunemente a mais descarada molecagem.


Caô Press - 21 de junho de 2002 - 16:35


Malandragem X Molecagem II

Dá para esquecer um dia como este? Há exatos trinta e dois anos atrás, uma das melhores seleções que o mundo viu jogar conquistou o tri com uma goleada em cima da Itália. E hoje a seleção brasileira jogou um grande futebol (como há muito tempo não se via), e mesmo com um craque a menos, mandou a Inglaterra de volta para casa. Quando o jogo estava um a zero para os ingleses, eu disse: vamos ganhar de dois a um. Ganhamos, e merecidamente.

Mas isso todo mundo viu e já sabe. E só estou de volta para fazer um adendo ao tema que me animou a escrever minha primeira crônica quase esportiva. Não retiro uma palavra do que disse nela, e acho uma pena que Rivaldo não tenha reconhecido o seu erro. Mas para que ela não se torne injusta, é preciso perguntar: há alguma diferença de fundo entre o que fez Rivaldo naquele jogo e o que David Beckham fez hoje, jogando-se ao chão na área brasileira e esperneando pela marcação de um pênalti que não existiu? É claro que não. Mas para o jogador da terra de Shakespeare não houve e não haverá punição alguma, assim como não haverá punição para essas agências de araque que teimam em classificar o Brasil (que está pagando todas as suas dívidas em dia, apesar dos juros extorsivos) como um país de alto risco para o investidor estrangeiro.

E o pior de tudo isso é que David Beckham não tem desculpa. Como assim? Estou sem tempo agora, mas prometo que voltarei (depois de comemorar a conquista do penta) para falar sobre isso.


Caô Press - 3 de julho de 2002 - 16:15


Pen-ta-cam-pe-ão...

Não estava escrito nas estrelas, mas... doravante estará escrito nas páginas da história (e nas estrelas da camisa canarinho:) o Brasil foi campeão do mundo pela quinta vez.

Li no UOL que o exótico e irrepreensível árbitro italiano Pierluigi Collina "poderia" ter apitado uma falta no lance do primeiro gol brasileiro, quando Ronaldo roubou a bola do alemão. Ah, mas não poderia mesmo. Não poderia simplesmente porque ele estava a dois metros do lance e porque aquilo não é falta nem aqui nem no Japão.

Quanto à eleição do melhor jogador da Copa, ela teve para mim aquele cheirinho característico de prêmio de consolação. Oliver Kahn é um excelente goleiro, mas eu realmente gostaria de saber se ele é melhor do que Marcos, que por sinal não cometeu um único erro nas sete partidas e fez algumas defesas primorosas. Seja como for, como torcedor brasileiro, inspiro-me na torcida norte-americana (Figo who?) e faço questão de rebatizar o brucutu alemão, que daqui por diante passa a chamar-se... Oliver Ahn?

Será que Rivaldo foi preterido pelos jornalistas por causa de sua simulação na primeira partida? É bem provável. Pois bem, há alguns dias eu disse que a simulação de Beckham não tinha desculpa, e isso leva-nos a supor que Rivaldo teria uma. E eu realmente não sei se é ou não uma desculpa, mas é certamente o outro lado da moeda: nós, brasileiros, não estamos acostumados a exigir nossos direitos, e isso simplesmente porque a maior parte de nossas "otoridades" trata nosso povo com um supremo descaso. Quem dá queixa numa delegacia se isso não for absolutamente necessário? Quem se arrisca a ser tratado como um cidadão de segunda classe logo depois de ter sido vítima de uma violência? Não o brasileiro pobre. Ele sabe que aqui a justiça só existe para os ricos e famosos. Gozando de uma cidadania tão precária, o brasileiro reage como pode, e aciona o glorioso "jeitinho": perante a autoridade, ele muitas vezes carrega nas tintas, dramatiza, na esperança de assim obter atenção e fazer valer o seu direito. Rivaldo não precisava disso; sendo um dos maiores jogadores do mundo e uma estrela da seleção de maior tradição em copas do mundo, ele poderia ter levantado a cabeça bem alto e exigido do juiz a (merecida) expulsão do agressor. E é no mínimo curioso perceber que nesse lance prevaleceu a origem humilde do nosso craque e todas as mazelas de nossa cidadania. Repito, não sei se isso chega a ser uma desculpa para Rivaldo; seja como for, é por essa mesma razão que Beckham (entre tantos e tantos e tantos outros) não tem desculpa. Ele sim, foi Moleque com maiúscula.

Ouvi dizer que Maradona, talvez o terceiro ou quarto maior jogador de toda a história do futebol, e também grande jogador de vôlei, qualificou a vitória do Brasil de "medíocre". Tudo o que posso dizer é que, jogando bola, Maradona tinha um toque de loucura que fazia dele um gênio do futebol; mas isso (obviamente) não fez dele um pensador. Temos um ponto de comparação entre Brasil e Argentina nesta Copa; ambos jogaram contra a mesmíssima Inglaterra, e ambos saíram perdendo no marcador. O resto o leitor já sabe. Se a vitória do Brasil foi medíocre... o que dizer da desclassificação argentina? Sim, nós brasileiros temos algo a aprender com os argentinos: um pouco de petulância nos cairia bem, somos demasiadamente humildes. Mas petulância sem pensamento é a própria receita do fracasso.

Para encerrar esta pequena série de crônicas quase esportivas, e talvez a minha própria "carreira" de cronista de futebol, gostaria de lembrar aqui as palavras de dois craques absolutos. Disse Tostão:

"O título não contradiz a péssima situação do futebol brasileiro fora de campo. No futebol, freqüentemente não há relação direta entre as duas coisas. As reformas não podem ser adiadas. São urgentes e inevitáveis."

O rei Pelé disse por sua vez:

"A verdade é que, se o nosso futebol fosse administrado de maneira profissional e honesta, chegaríamos a todas as finais de Copa do Mundo - e ganharíamos a maioria. Espero que até a próxima Copa, a gerência do nosso futebol tenha passado por uma melhora radical para que possamos nos concentrar só na bola."

Apesar da divergência quanto à relação entre administração e resultados, os dois estão dizendo exatamente a mesma coisa. Quem acompanha futebol, mesmo que de longe, sabe do que os dois craques estão falando. O jornalista Marcos Guterman resumiu tudo em poucas palavras:

"Enfim, ao torcedor que prefere a história oficial, é preciso lembrar que essa história é construída pelos oportunistas com um claro objetivo: beneficiar os responsáveis diretos pelo crescente desgaste do futebol brasileiro, ou seja, a cartolagem, campeã mundial de desmandos, e a TV, que monopoliza, explora e exaure a paixão nacional. Faça a sua escolha."

O Brasil é pentacampeão. Pen-ta-cam-pe-ão! Mas é sempre a velha história: temos um povo muito superior às nossas elites, e um escrete muito superior aos seus dirigentes. E ainda teremos que resolver esses problemas antes de voltarmos a escrever, nos agasalhos da CBF, "Brasil" com maiúscula.


Página criada em 4 de junho de 2002
e atualizada em 3 de julho de 2002

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