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| "A emoção mais antiga e mais intensa
da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais intenso dos medos
é o medo face ao desconhecido." Nenhuma outra frase parece-me
mais apropriada do que a do escritor H. P. Lovecraft para disparar uma rápida
reflexão sobre a novela dos últimos dias desta campanha presidencial
de 2002. Dizer que todo mundo tem direito de ter medo é um truísmo; nessa matéria, aliás, não ter medo é a trágica exceção à regra. Portanto, em primeiro lugar, a atriz Regina Duarte tem pleno direito de ter medo. Em segundo lugar, é claro que ela tem pleno direito de expressar esse medo, seja em privado, seja em rede nacional; evidentemente, o mesmo se aplica à contraditora Paloma Duarte e a todos que se manifestaram a seguir. Tudo isso é (ou deveria ser) tão evidente que manter a discussão nesses termos parece-me inútil. Para mim o verdadeiro problema está em outra parte: por que a campanha de José Serra à Presidência está se valendo de expedientes como esse? O candidato havia dito, no início do segundo turno, que iria discutir propostas, dando a entender que as suas seriam mais coerentes e bem fundamentadas do que as de Lula. Ora, não foi isso que se viu nos programas eleitorais de Serra. Ao contrário, num momento delicado da vida do país, quando parte do mundo olha-nos com desconfiança, Serra insistiu na tese de que a vitória de Lula mergulharia o Brasil num caos econômico e social semelhante ao que vivem nossos hermanos do sul. Numa palavra, Serra usou a (antiga) estratégia terrorista de associar a vitória de seu adversário às perspectivas mais sombrias que se possa imaginar. Quem retornasse de um coma prolongado e assistisse de chofre aos programas de Serra certamente haveria de pensar que seu adversário só poderia ser Enéas, ou algo ainda pior. Nesse sentido, e ao contrário de certos polemistas de carteirinha, eu acredito que o depoimento de Regina Duarte exprime, de fato, as idéias e os sentimentos da atriz. Mas o fato é que Regina, ao exprimir sua opinião com toda a verve que seu talento e sua experiência lhe permitem, não passou de um joguete nas mãos de Serra e daqueles que traçaram a estratégia de campanha do candidato do governo. A questão, portanto, permanece: por que Serra desceu tão baixo em sua campanha? Num primeiro momento, cheguei a pensar que Serra estava fazendo o jogo dos desesperados, usando todos os recursos possíveis para tentar reverter uma situação praticamente irreversível. É verdade que Lula já concorre pela quarta vez à Presidência e jamais se valeu desse expediente, mas essa circunstância só poderia decorrer, pensei eu, da visível diferença de estatura ética entre os dois candidatos. Lula esperou pacientemente a sua vez, ao passo que Serra, possuído pelo imediatismo que caracteriza estes dias, não queria esperar coisíssima nenhuma. Quanta ingenuidade a minha. Apenas hoje, diante de um esclarecedor texto de Kennedy Alencar, eu me dei conta de que tudo era muito pior do que eu imaginava. Segundo o repórter da Folha, Serra está insistindo (e aprofundando) sua estratégia de (tentar) semear o pânico entre os eleitores com vistas à eleição de 2006. Como ele aposta no fracasso do governo de Lula, Serra está investindo no "Não disse? Eu avisei!", para poder com isso faturar algum cacife eleitoral nas próximas eleições presidenciais. Não sou filiado ao PT (nem a qualquer outro partido) e não estou de olho em nenhum cargo de qualquer escalão no próximo governo, e portanto sinto-me extremamente à vontade para fazer as considerações a seguir. Lula e seus companheiros provavelmente cometerão alguns erros em seu governo, e digo isso baseado apenas na prudente suposição de que ninguém é infalível. Mas o PT é, sem sombra de dúvida, o partido mais sério deste país. Lula está propondo um pacto entre trabalhadores, empresários e governo, e mostra-se disposto a ouvir todos os setores que compõe a sociedade brasileira. E é inegável que o compromisso mais primordial do PT é o de reduzir tanto quanto possível a miséria e a desigualdade que vigoram em nossa sociedade. Nessa perspectiva, apostar no "quanto pior melhor", como está fazendo Serra, não seria equivalente a fazer uma aposta, não contra Lula ou contra o PT, mas contra o próprio Brasil? E se Serra realmente sabe "como fazer", como apregoou durante toda a sua campanha, por que ele não faz planos para colaborar com o futuro governo, ao invés de fazer oposição e torcer pelo pior - nada menos do que a "ruína" do Brasil - apenas para colher os frutos do poder quatro anos mais tarde? Serra já mostrou suficientemente que é incapaz de costurar alianças e carrear simpatias, mesmo entre os seus correligionários. Em função disso, seu governo seria provavelmente o pior que já tivemos; e se algo poderia levar-nos à ruína nesta época conturbada que o país e o mundo estão vivendo, seria justamente a falta de habilidade política de Serra. Há quem tenha medo de Lula, mas eu tenho medo é de Serra, de sua arrogância, de sua sede de poder, das alianças espúrias que teria que fazer para governar. Como afirmei no início, medo todo mundo tem; mas parece-me igualmente justo afirmar que cada qual tem o medo que merece. |
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