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| Um homem sentado à beira da piscina de sua casa envolto
por dois celulares, modem, tela de cristal líquido e outros pequenos
e poderosos acessórios tecnológicos de última geração,
fechando negócios e orientando sua assistente. Este homem é
um mega produtor hollywoodiano, especialista em filmes ultraviolentos e
pornográficos. Seu trabalho transcorre sem que ele se desloque de
sua exuberante mansão em Beverly Hills. Assim se inicia o último
filme de Win Wenders "The End of Violence", traduzido literalmente
no Brasil por "O fim da violência". No filme o ator Bill
Pullman apesar de trabalhar em casa, está em crise em seu casamento,
pois parece passar todo o seu tempo à frente de seu laptop fechando
contratos para o seu próximo filme. Sua mulher insatisfeita e aparentemente
entediada o vislumbra do alto de seu quarto a alguns metros acima do quintal
de sua casa, pega o telefone (sem fio) e liga para um dos celulares do produtor
para lhe anunciar que irá deixá-lo. Mas nosso herói
tem pouco "tempo" para trocar com sua mulher já que um
possível parceiro japonês para o seu filmes está em
outra linha e este negócio pode lhe render muitos milhões
de dólares. Corta.
Temos então a imagem do observatório de L. A. (Los Angeles) em que nos é apresentado um personagem solitário e um tanto quanto enigmático interpretado por Gabriel Byrne. Seu ofício é a observar inúmeras esquinas da cidade. Contudo, esta vigilância não é feita através de uma presença real. O personagem trabalha em uma das salas do observatório onde diversos monitores acompanham os acontecimentos em diferentes pontos da cidade: uma jovem em seu quarto que chora o abandono do namorado; um rapaz negro que parece um traficante de drogas espreitando um provável usuário; uma batida policial que age com enorme vigor e violência com jovens hispânicos. Ele é um observador no observatório que com seus olhos multiplicados por um sem número de telas, amplificou de maneira multitudinária a capacidade de vigiar e controlar indivíduos anônimos de um centro urbano de uma megacidade. Wenders não criou uma parábola ou, menos ainda, uma metáfora de uma sociedade opressiva a perseguir seus cidadãos. O observador no observatório que por uma de suas telas testemunharia o seqüestro e a provável execução do produtor cinematográfico em um terreno baldio sob uma enorme malha viária, nos dá a ver um exemplo emblemático de uma mudança no modo de vida e nos processos de subjetivação em nossa sociedade contemporânea. Estamos a ver neste filme a apresentação de um novo modelo de sociedade. Este modelo configuraria formas diferenciadas de controle dos indivíduos: mais importante do que saber quem se é, o que é importante é o que este que é pode fazer. Como se todos fossem delinqüentes ou sabotadores em potencial, mesmo que sua possível "inofensibilidade" o redima do controle. Estas novas facetas com que se constitui a sociedade contemporânea é uma das estratégias de controle sobre as práticas dos indivíduos. O controle está na base da última metamorfose do capital. No entanto, para que me faça entender preciso falar de um momento histórico peculiar e fundamental que antecedeu a construção de uma sociedade de controle: a passagem das sociedades disciplinares constituídas no bojo das práticas normativas engendradas principalmente na Europa dos séculos XVIII e XIX. É possível identificar nestas sociedades que se ergueram na passagem da Era Clássica para a Modernidade, segundo a leitura de Michel Foucault, como sua principal característica a prática do confinamento. As instituições modernas que se ergueram em conseqüência dos desdobramentos das Revoluções Francesa e Industrial teriam na disciplina do corpo um de seus elementos fundamentais. Teríamos a família, a escola, o quartel e a fábrica mais do que aparelhos a reproduzir ideologicamente o Estado liberal burguês, ou seja, centros de confinamento a moldar um corpo, a disciplinar um indivíduo, a cunhar uma subjetividade. O início do século XX, o fordismo e o crescimento urbano apresentam uma sociedade disciplinar em pleno funcionamento, onde a fábrica seria seu principal modelo: a forma-fábrica. Nela o indivíduo trabalha, mora em suas proximidades, seu filho estuda nos arredores e, até seu lazer acontece nas imediações de seu local de labor. A fábrica como ter-se-ia tornado uma espécie de cidadela medieval em que Deus foi substituído pelo Capital e a produção de mercadorias substituiu a irrigação das benfeitorias, assim como o salário tornou-se bem mais fundamental que o sudário (divino). Este modelo disciplinar parece estar se perdendo completamente... e em seu lugar nasce um novo modelo de regularidades das práticas sociais. Depois da Segunda Grande Guerra a forma-fábrica como modelo emblemático das sociedades disciplinares começa a ser substituído por um novo modelo: a forma-empresa. O confinamento e os dispositivos disciplinares que caracterizavam até então a Sociedade Moderna já dão sinais de escassez. O modelo da empresa com sua flexibilidade ocupa o espaço que foi o da fixidez da fábrica. É importante ressaltar que estas mudanças ocorrem em todo o globo; contudo, elas não se dão como num passe de mágica simultâneo em todas as localidades da terra. Esta visível substituição de um modelo disciplinar que teria caracterizado a sociedade industrial moderna para um novo modelo que é chamado de pós-industrial, ou mesmo pós-moderno, se dá de maneira diferenciada no sistema globalizado. É marcante que as sociedades que mais empreenderam esta substituição ocupem um lugar de dominação político-econômica em relação àquelas que ainda não a fizeram ou estão por fazê-la. A idéia de controle a nortear uma leitura das sociedade contemporâneas nos coloca imediatamente na urgência de pensar a eclosão destas novas formas de poder e dominação engendradas por esta última metamorfose do capital. Agora um capital completamente integrador e não mais excludente como nas sociedades industriais que o precedeu. Um capitalismo mundial integrado. Se nas sociedades disciplinares o modelo panóptico é dominante, ou seja, o observador está de corpo presente e em tempo real a nos observar e a nos vigiar; nas sociedades de controle esta vigilância torna-se rarefeita e virtual. As sociedades disciplinares são essencialmente arquiteturais: a casa da família, o prédio da escola, o edifício do quartel, o galpão da fábrica. Por sua vez, as sociedades de controle aponta uma espécie de anti-arquitetura. A ausência da casa, do prédio, do edifício e do galpão é fruto de um processo de virtualização do mundo. A casa pode ser substituída pelo micro em seu carro (um treiler moradia), a escola por um telecurso ou teleconferência, o quartel com seus soldados disciplinados por mísseis teleguiados e o galpão da fábrica não é mais necessário para as peripécias do mercado: o operário é substituído pelo funcionário. É possível afirmar que a passagem das sociedades disciplinares ou da sociedade industrial para as sociedades de controle pós-industriais tem como elemento fundamental a produção de novas tecnologias do virtual. A tecnologia sempre andou par e passo aos processos sociais. As máquinas e seus desdobramentos constituem importantes índices para definirmos as mudanças nestes processos societários. Se tínhamos as máquinas naturais e seus meios de transporte equivalentes como o cavalo nas sociedades que antecederam as disciplinares (nas sociedades de soberania no dizer de Foucault) ela foram substituídas pelas máquinas energéticas e elétricas das sociedades disciplinares, assim como o carro sucedeu o cavalo. Por sua vez, as máquinas energéticas e elétricas cederam lugar às máquinas informacionais das sociedades de controle e o transporte tornou-se extremamente mais veloz que o já hoje lento carro e o extremamente lento cavalo (o avião a hidrogênio está aí para nos provar sua eficácia). Dito de outra maneira, não há como não relacionar desenvolvimento tecnológico e processos de mudança social. Deve-se levar em conta inclusive que estas mudanças não só acarretam modificações nas superestruturas ideológicas e nas infraestruturas econômicas - o nível molar, como também nas práticas dos pequenos grupos sociais e na produção dos agenciamentos coletivos e individuais - o nível molecular. O desenvolvimento e as novas tecnologias estão sempre a produzir modos de vida e cunhar subjetividades. Com isto é possível termos uma nova visão do que seja o poder, pois se afirmo que há uma clara relação entre o macrosocietário e o microsocietário no que concerne à invenção de novas tecnologias, digo que precisamos olhar o poder e as formas de dominação para além da clássica relação entre Estado e Sociedade Civil, poder estabelecido e poder instituído, Cidade e Cidadão. O exercício do poder e de suas práticas possui mecanismos muito mais sutis que a repressão da força policial possa vir a exercer sobre o corpo de um indivíduo. As pesquisas de Michel Foucault já apontam para esta direção, assim como os livros de Gilles Deleuze e Félix Guattari. O poder não é apenas repressivo e negativo, ele possui uma instância de positividade: o poder cunha subjetividades. Assim, deixamos de estar confinados como nas sociedades disciplinares e passamos a estar endividados como nas sociedades de controle: o confinamento e a dívida se estabelecem para além do que simples efeitos de políticas estatais. Eles, tanto o confinamento como a dívida, são produtos de um conjunto de regularidades que engendram práticas e exercícios moleculares do poder. Afetam grupos, grupelhos e grupúsculos. Voltando a Wenders. Aquele observador a espreitar inúmeros lugares das cidades pelos prolongamentos de seus olhos - uma espécie de olho-tela - parece, decididamente, um exemplo pertinente da substituição do modelo panóptico disciplinar para o modelo das sociedades informacionais de controle. Ele vê sem ser visto (panóptico) e controla indivíduos que se vêem livres (controle). A tecnologia aqui é utilizada como dispositivo de poder. O projeto é financiado pelo FBI, a agência de informações do governo norte-americano, que investiu muitos milhões de dólares em tecnologia telemática para dar FIM à Violência. Um projeto ultra secreto. A cidade é Los Angeles (L. A.). A cidade dos anjos. Anjos da velocidade, pois L. A. é conhecida como cidade do automóvel: ninguém anda a pé. O espaço público é a tela do pára-brisa dos carros, seus celulares e seus laptops. Mas Win Wenders com Gilles Deleuze e Félix Guattari, Michel Foucault e Paul Virilio que me inspiraram a escrever estas páginas, não são catastrofistas como à primeira vista pode parecer. No filme, o então produtor não morre no seqüestro que lhe foi impingido e é encontrado próximo à sua casa por um grupo de jardineiros de origem hispânica que lhe socorrem. Lá ele encontra uma guarida, fala-se outra língua (o espanhol). Esta é uma língua menor no Estado americano da Califórnia, habitado pelas minorias chamadas de "chicanos". E ali, junto a uma minoria, que o produtor entenderia o sentido da violência e reverteria sua própria imagem, tornando-se um jardineiro. Entretanto, ele ainda precisa dos utensílios tecnológicos para entender o porquê de seu seqüestro (que viria a acontecer ao final do filme). A tecnologia aqui foi apropriada como uma linha de fuga, por alguém hybrido, que pertencendo à classe dominante de um grande centro urbano, morador de uma megacidade se vê aliado de uma minoria, a falar uma língua menor. Utilizei aqui, não sem uma certa liberdade, conceitos filosóficos para falar de uma obra cinematográfica. Não obstante, o filme em questão nos coloca de imediato um grande número de indagações, que se não são propriamente filosóficas no incitam a pensá-las como problemas de cunho filosófico. Este filme de Wenders, assim como todo o seu cinema, é um esforço a pensar as sociedades contemporâneas. Talvez no que elas tenham de mais de mais inquietante: o florescimento de uma nova subjetividade nas fissuras criadas pelos deslocamentos humanos nas grandes cidades. Dito de outra maneira, o cinema de Wim Wenders se perguntar que modo de vida é este que surge em uma época em que homem rompe com os modelos de verdade característicos do século XX em seu início, como a permanência, a casa, o convívio entre os iguais e uma certa solidariedade social. Estaríamos diante agora de um vagar, dos deslocamentos pertinentes as megacidades, do atravessar os territórios, do sentir estrangeiro em qualquer lugar que se esteja, da solidão mesmo na presença de outrem? Desde o seu primeiro filme Verão na cidade algumas preocupações
que iriam ser desenvolvidas ao longo de toda a obra wenderianas já
se apresentam: o tempo é lento, apesar dos constantes deslocamentos
que caracterizam seus personagens, que aparecem sempre prontos a pegar
um veículo e ir... O fascínio de Wenders pelos deslocamentos,
pelo vagar, pela observação de paisagens desconhecidas nos
faz lançar uma hipótese do seu fascínio por um certo
cinema norte-americano, apartado dos grandes estúdios hollywoodianos,
e pelas inóspitas paisagens semi-áridas dos desertos americanos.
Com isso torna-se possível dizer que os americanos foram os criadores
dos chamados road-movies, ou filmes de viagens. A própria mitologia
americana é composta por esses deslocamentos. Deslocar-se por entre
as paisagens do deserto para desencadear o processo civilizatório.
Os americanos como uma espécie de novos cruzados. O cavalo, a cruz
e a espada, sendo substituída em parte pelo trem, o dólar
e o revólver. Wenders produziu uma poderosa releitura destes índices
do imaginário americano, que é uma das construções
simbólicas mais importantes do século XIX, captadas para
o cinema das grandes imagens narrativas de um Ford ou de um Hawks. Este
encontro de Wenders com o cinema americano e o fascínio pelo seu
imaginário se inicia já em um de seus primeiros filmes que
é Alice nas Cidades, retornando em O Amigo Americano e no filme
sobre Nicholas Ray - O filme de Nick, para realizar logo depois Hammett,
O Falcão Maltês e, finalmente, Paris-Texas. Em todos esses
filmes deslocar-se no espaço, fazer passar o tempo é uma
tônica presente, assim como, o encontro entre o que seria propriamente
europeu - a meditação, a solidão e uma certa incomunicabilidade
para com o outro, com a aventura e o contar uma história do cinema
americano. Na verdade, nestes filmes o que Wenders parece colocar é
o encontro de duas culturas opostas a se completarem pelo encanto desta
oposição mesma: os americanos e os alemães. Vitoriosos
e derrotados na Segunda Grande Guerra. O encontro do tema do exílio
com a premência da aventura: o road-movie wenderiano. Jorge Vasconcellos é professor e doutor em Filosofia pela UFRJ
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