Trecho de uma mensagem enviada para Heloísa:
sobre os peixes, fiquei pensando: a mobilidade e a dificuldade de apanhá-los
com as mãos, além do fato de que, quando pescados, quando
expostos ao consumo das feiras, um dos raros alimentos que compramos inteiro
e de olhos abertos, olhos que não olham, que parecem lembrar, guardar
o sabor da intimidade com o meio perdido, completamente desconhecido por
nós. Há algo neles de uma nostálgica intimidade, de
uma imersão irredutível ao verbo, cujos poemas parecem apenas
se aproximar por precárias alegorias e fugitivas metonímias. |
Agulhas
Não precipitemos as
coisas: essa vertigem
que parece insuflar
fôlego, palpitação
ao inanimado ainda
é muda, saibamos
perceber esse estado.
Não devotemos ainda
às pedras ou a qualquer
outro ente que nesse
perímetro nos afete
o discurso esperado
do cosmos, não estimemos
apelos dos astros no que
ainda é simples vibração
inaudita e presente
nesse íntimo espanto.
Sintamos apenas - não
denominemos o amor -
na língua as agulhas
do instante translúcido,
o conteúdo evanescente
após estourada a fina
esfera de toda metáfora.
NOTA
Durante mais de quatro anos você leu aqui, de graça, várias poesias
de Marcelo Diniz. Elas foram reunidas no
extraordinário livro trecho, já esgotado
na
editora (onde
há uma
entrevista com
o autor e também outro
poema do livro). Portanto, a hora é de correr às livrarias
e (tentar) garantir o seu exemplar - ou escrever à editora para pedir
uma segunda edição.
Quando ele tiver sido lido, relido e digerido... então será hora de retornar
a esta página para ler poemas inéditos do autor. Até lá! (FF)
Marcelo Diniz é poeta, letrista, professor, doutorando em Letras
pela UFRJ
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