| PÁGINA ANTERIOR |
Francisco Fuchs - O que o levou a escrever Saudades de Mênfis?Mário Zambonin - Esse conto nasceu de alguns estudos sobre o Egito antigo, e foi aliás inspirado em fatos narrados num dos livros que pesquisei. Se alguém for filmá-lo algum dia, poderá anunciar, como nesses filmes "D" da televisão: "Baseado em Fatos Reais". FF - A que fatos você está se referindo?MZ - Tudo começou com uma carta de um escriba que sentia saudades de sua terra, pois tinha sido designado para trabalhar numa pequena cidade no Delta do Nilo, uma região bastante pantanosa, com muitos mosquitos, crocodilos... e estava sem ter onde morar, pois não havia palha para fazer tijolos, nem trabalhadores. FF - Crise na construção civil...MZ - Então eu fiquei tocado com a história daquele pequeno funcionário do império, desenraizado, sem afeto e sem lar... Daí para toda aquela história de poder totalitário e corrupção, que aliás não é privilégio do Egito antigo, foi um pulo. FF - A trama então você inventou.MZ - A trama e o clima paranóico de perseguição, que estava ausente da carta original. Tudo pode não ter passado de um delírio do escriba... FF - E o detalhe dos cachorros?MZ - Gostaria de ter inventado, mas não inventei. É incrível, mas está lá também, nas fontes. Uma profusão de cachorros, mosquitos, crocodilos, tudo... Gosto desse trecho porque ele me remete a um conto que eu adoro, "Chacais e Árabes", de Kafka. FF - Por você escolheu justamente Saudades de Mênfis, que é tão diferente de tudo que você costuma escrever, para colocar na Internet?MZ - Acho que foi justamente porque ele é diferente de tudo que já escrevi. Ele simplesmente não caberia num livro meu - se algum dia eu publicar um (risos). Ele não tem nada a ver com o meu trabalho ou com os temas que eu abordo. Digamos que ele não chega a ser um filho enjeitado, mas não se dá bem com seus irmãos... FF - Eu acho que caberia, talvez como uma espécie de preâmbulo.MZ - É uma boa idéia, só que para mim ele é um caso à parte. Jamais vou voltar a trabalhar do modo que trabalhei nesse conto. Por exemplo, as garras da esfinge só são descritas como "magníficas" por causa do livro "A arte egípcia", de Worringer. Não se trata apenas de um adjetivo que soa bem. É toda a antiga arte egípcia que está em jogo nessas enormes garras... e nesse adjetivo. Mas eu não sou nenhum erudito, e tampouco desejo escrever para eruditos ou produzir uma literatura requintada - muito pelo contrário. Meu conto faz um monte de referências (Worringer, Kafka, Borges...) mas eu não acredito que referências, por inevitáveis que sejam, garantam a qualidade do texto. FF - Eu acho que o seu conto funciona mesmo que o leitor não alcance essas referências. A leitura pode se dar em inúmeros planos...MZ - Se ele funciona, como você diz, é graças à poesia do povo egípcio. Aliás, foram tantas as expressões surrupiadas de antigos documentos egípcios que, a rigor, eu posso ser considerado um ladrão de tumbas (risos). Mas isso foi em 1994, e nessa época eu ainda escrevia. Sei que isso pode soar um pouco clichê, mas realmente acho que a gente tem que desaprender a escrever para poder criar alguma coisa. Sob esse aspecto, Saudades de Mênfis é ainda muito "literário", e não me agrada. FF - Há quem goste...MZ - Isso não quer dizer que ele não irá agradar às pessoas. Eu mesmo gosto, mas confesso que tenho pretensões maiores. Quero escrever algo que faça as pessoas sentirem de outra maneira, e que as faça pensar, não pensar aquilo que eu quero que elas pensem, mas simplesmente - pensar. Acho que todo o resto é acessório - é literatura. É claro que no fim das contas eu sempre vou me preocupar, e muito, com o aspecto formal da obra, o que eu não quero é que esse tipo de preocupação assuma o primeiro plano. Percebo isso muito claramente na música. Às vezes falta inspiração, o material melódico é uma porcaria, mas como os músicos conseguem realizar aquilo muito bem... é o tal negócio, uma porcaria bem tocada convence muita gente... e aos próprios músicos em primeiro lugar. Então acho que o essencial é a idéia, e o resto a gente faz o melhor que puder. Se algum dia me faltarem idéias, vou parar de escrever, vou fazer outra coisa... FF - O que é escrever para você?MZ - Para mim, escrever é brincar de Deus: Fiat lux, e voilá, eis um novo mundo. As pessoas ainda dão muito valor à palavra escrita, como se ela fosse portadora de uma verdade. As relações entre a escrita e a lei são muito antigas, muito mais antigas do que Moisés, por exemplo. As pessoas se esquecem de que a maior parte de tudo que já se escreveu até hoje é, de um modo ou de outro, fraude e contrafação. Uma vez que você compreenda isso, escrever torna-se uma brincadeira, mas uma brincadeira séria. Há um ponto em que o falso e o verdadeiro se tornam indistintos, em que a produção do simulacro torna-se também produção de verdade. FF - Você diria que nós nos tornamos meros consumidores de simulacros, e já não produzimos mais as nossas verdades?MZ - Para mim isso é evidente. É por isso que todo escritor deseja um leitor artista. Não necessariamente um leitor que também seja escritor, ou pintor, ou o que seja, mas um leitor que seja um criador. Alguém que não somente leia, mas pense aquilo que está lendo, e produza alguma outra coisa com aquilo, seja lá o que for - talvez um gesto, uma fala... talvez um site na Internet (risos). Ou não produza nada senão um certo brilho diferente no olhar... Sem pensamento, e portanto sem criação, o simulacro é ralo e a verdade pífia: nossa vida de todos os dias. O nosso problema não é mentirmos demais, nosso problema é que nossas verdades sejam tão pequenas, tão mesquinhas. FF - E tão pouco nossas...MZ - Ainda por cima! FF - Acreditamos num monte de bobagens que nós nem mesmo inventamos...MZ - Basta dar uma boa olhada na vida do homem moderno: jornais, livros, revistas, igrejas, programas de televisão, universidades, a própria Internet... Tudo ou quase tudo em nossa vida moderna é um grande esvaziamento. Mas o pensamento pode transfigurar tudo isso, a toda hora, em qualquer lugar... Página de Mário Zambonin |
| PÁGINA ANTERIOR |